ELE618 - Sistemas Elétricos Industriais

Instalações Elétricas - Ademaro A. M. B. Cotrim
Capítulo 10 - Correntes de Curto-Circuito

Prof. Dr. Thales A. C. Maia

UFMG - DEE

Introdução

Fatores Determinantes da Corrente de Falta

A avaliação das correntes de falta passíveis de ocorrer em uma instalação é um problema complexo que depende de diversos fatores:

  • Instante do início da falta em relação à onda senoidal da tensão aplicada (fase inicial).
  • Impedância de toda a rede de média e alta tensão que alimenta o defeito.
  • Tipo e potência das fontes envolvidas.
  • Impedância das linhas de baixa tensão até o local do defeito.
  • Resistência da falta, dependendo do contato e do arco elétrico.

As Fontes de Correntes de Falta

Sistemas geradores

São considerados fontes de correntes de falta:

  • O sistema da concessionária de energia elétrica.
  • Os geradores síncronos.
  • Os compensadores síncronos.
  • Os motores (tanto síncronos quanto de indução).

A corrente produzida por uma máquina girante é limitada pela sua impedância interna (variável no tempo) e pela impedância até a falta.

Análise da Corrente de Curto-Circuito

Relação \(X\) e \(R\)

Quando ocorre um curto-circuito, estabelece-se instantaneamente um percurso de baixa impedância entre as fontes e o ponto de falta.

O fator de potência de curto-circuito (\(\cos\phi_k\)) é determinado a partir da reatância indutiva e da resistência totais do percurso da corrente.

  • Se a reatância for muito maior que a resistência (\(X \gg R\)), a corrente de curto será atrasada em quase \(90^\circ\).
  • Se o curto ocorrer quando a tensão passa pela crista, a corrente será simétrica.
  • Se o curto ocorrer quando a tensão for zero, a corrente será totalmente assimétrica.

Fig. 1: Correntes de curto-circuito em um sistema com fator de potência praticamente igual a zero; (a) corrente simétrica, (b) corrente totalmente assimétrica

A defasagem entre tensão e corrente será \(\Phi_k = 45^o\) e a máxima assimetria será obtida quando o curto-circuito ocorrer a \(90 + 45 = 135^{o}\) do ponto zero da onda de tensão.

Fig. 2: Curto-circuito com máxima assimetria em um circuito com a resistência igual à reatância.

A resultando é formada por duas componentes: uma alternada (senoidal) e outra contínua. A soma de ambas dará a corrente assimétrica.

Fig. 3: Componentes alternado e contínuo de uma corrente de curto-circuito assimétrica.

O componente contínuo não continua a circular com um valor constante, a menos que a resistência do circuito seja zero. No entanto, na prática, todos os circuitos possuem resistência, e o componente contínuo — chamado ‘aperiódico’ — decrescerá.

Fig. 4: Corrente de curto-circuito assimétrica.

Fundamentos dos Cálculos

Circuito simplificado

A expressão básica para o cálculo de qualquer corrente de falta deriva da Lei de Ohm:

\[ I_F = \frac{U}{Z} \]

Fig. 5: Circuito RL equivalente para falta.

No entanto, o regime transitório inicial (antes do estabilização) gera os seguintes valores notáveis:

  • Corrente Simétrica Inicial (\(I''_k\)): Valor eficaz no instante inicial, mantendo \(Z\) constante.
  • Corrente Permanente (\(I_k\)): Valor eficaz após a cessação dos fenômenos transitórios.
  • Corrente de Crista (\(I_p\)): Valor instantâneo máximo possível, dependendo da assimetria (relação \(R/X\)).
Fig. 6: Corrente de curto-circuito presumida relativa a uma falta distante do gerador.

Premissas para o Cálculo em Baixa Tensão

Nos cálculos de instalações de baixa tensão, adota-se a pior condição de assimetria (onde a tensão inicial da falta é \(\Psi = \phi_k \pm 90^\circ\)) e assumem-se as seguintes condições:

  • Falta direta e simultânea: Despreza-se a resistência de contato e o arco elétrico.
  • Falta distante do gerador: A fonte está eletricamente distante, portanto a corrente permanente iguala-se à subtransitória/inicial (\(I_k = I_k^{\prime\prime}\)).
  • Rede radial e invariável: A tensão da fonte e as impedâncias são constantes; o tipo de falta (ex: trifásico) não se altera durante o evento.
  • Efeitos desprezados: Capacitâncias das linhas, faltas duplas à terra e admitâncias paralelas não entram na conta.
  • Transformadores: Seus comutadores de tap são considerados na posição principal.

\[ \cos \Phi_k = \frac{R_k}{\sqrt{R_k^2 + X_k^2}} \]

  • \(\Phi_k\) é o ângulo de defesagem entre tensão e corrente.

Cálculo da Corrente de Crista

A corrente de crista (\(I_p\)) é calculada multiplicando-se o valor eficaz da simétrica inicial por um fator de assimetria \(\lambda\) e por \(\sqrt{2}\):

\[ I_p = \lambda \sqrt{2} I''_k \]

Onde o fator empírico \(\lambda\) depende da relação \(R/X\) do circuito:

\[ \lambda = 1,02 + 0,98 e^{-3(R/X)} \]

Nota: Quanto maior a resistência em relação à reatância (maior \(R/X\)), menor a assimetria e menor o pico inicial.

Fig. 7: Fator \(\lambda\) em função de (a) R/X e de (b) X/R.
Tab. 1: Valores de \(\lambda\) e de \(\lambda \sqrt{2}\) em função de \(\cos \Phi_k\) e de \(X/R\)
\(X/R\) \(\cos \Phi_k\) \(\lambda\) \(\lambda \sqrt{2}\)
\(\infty\) 0 2,00 2,83
3,18 0,30 1,40 1,98
0 1,00 1,00 1,41

Impedância de Curto-Circuito

Rede em AT

Impedância da Rede (Fonte AT):

\[ Z_Q = \frac{c_Q \cdot U_{nQ}}{\sqrt{3} I^{\prime\prime}_{kQ}} \]

Fator de Tensão (\(c_Q\)): Fator normativo que corrige a tensão da rede para o pior cenário. Usa-se \(c = 1,1\) para encontrar o curto máximo (dimensionar o disjuntor) ou \(c = 1,0\) para o curto mínimo (checar sensibilidade).

Se as resistências/reatâncias da rede não forem conhecidas, adota-se a aproximação: \[ X_Q \cong 0,995 Z_Q \quad \text{e} \quad R_Q \cong 0,1 X_Q \]

Impedância dos Transformadores

Para os transformadores, a impedância total (referida ao lado de Baixa Tensão) é obtida através da tensão de curto-circuito em % (\(u_k\%\)):

\[ Z_{T(BT)} = \frac{u_k\%}{100} \cdot \frac{U_{NT(BT)}^2}{S_{NT}} \]

A componente resistiva é obtida pelas perdas no cobre (\(P_{kN}\)) ou pela queda resistiva (\(u_R\%\)): \[ R_{T(BT)} = \frac{P_{kN}}{3 I_{NT(BT)}^2} \]

E a componente reativa por Pitágoras: \[ X_{T(BT)} = \sqrt{Z_{T(BT)}^2 - R_{T(BT)}^2} \]

Referência de Impedâncias para a Baixa Tensão

Para calcular a corrente de curto-circuito em baixa tensão, todas as impedâncias do lado da alta (da rede e das linhas) devem ser referidas ao lado da baixa tensão.

Isso é feito dividindo a impedância real em AT pelo quadrado da relação de transformação nominal (\(t_N\)):

\[ t_N = \frac{U_{NT, AT}}{U_{NT, BT}} \quad \longrightarrow \quad Z_{BT} = \frac{Z_{AT}}{t_N^2} \]

Tab. 2: Valores típicos de transformadores nacionais (dados fornecidos por fabricantes).
Potência nominal (kVA) Tensão de curto-circuito1 (%) Perdas no cobre (W)
30 3,5 570
75 3,5 1.140
300 4,5 3.360

Nota: 1. A NBR 5356 considera como ‘valores típicos’, 4,0% até 630 kVA, inclusive, e 5,0% até 1.250 kVA.

Impedância das Linhas de Baixa Tensão

Para as linhas (cabos e barramentos), os valores de resistência e reatância totais são extraídos dos valores tabelados em \(\text{m}\Omega/\text{m}\) ou \(\Omega/\text{km}\)):

\[ R_L (\text{m}\Omega) = l (\text{m}) \cdot R^{\prime}_L (\text{m}\Omega/\text{m}) \]

\[ X_L (\text{m}\Omega) = l (\text{m}) \cdot X^{\prime}_L (\text{m}\Omega/\text{m}) \]

O comprimento \(l\) é medido em um sentido do cabo (distância do quadro até o ponto da falta).

Tab. 3: Valores da resistência e da reatância de condutores de cobre (utilizáveis nos cálculos de curto-circuito).
Seção nominal (mm²) Resistência (m\(\Omega\)/m) Reat. indutiva - Condutores isolados (m\(\Omega\)/m) Reat. indutiva - Cabos unipolares (m\(\Omega\)/m)
2,5 7,41 0,1202 0,1459
25 0,727 0,1020 0,1146
120 0,153 0,0933 0,0993

Expressões das Correntes de Falta

Com todas as impedâncias calculadas, aplicamos a Teoria das Componentes Simétricas para encontrar as correntes de curto (\(Z_1\) = positiva, \(Z_2\) = negativa, \(Z_0\) = zero):

1. Trifásico (Maior Severidade): \[ I_{k3}^{\prime\prime} = \frac{c \cdot U_N}{\sqrt{3} Z_1} \]

2. Bifásico: \[ I_{k2}^{\prime\prime} = \frac{c \cdot U_N}{Z_1 + Z_2} \cong \frac{\sqrt{3}}{2} I_{k3}^{\prime\prime} \]

3. Monofásico (Fase-Terra): \[ I_{k1}^{\prime\prime} = \frac{c \sqrt{3} \cdot U_N}{Z_1 + Z_2 + Z_0} \]

Contribuição dos Motores

Fig. 8: Aplicação da contribuição dos motores nas correntes de curto-circuito.

Os motores de indução agem como geradores durante os primeiros ciclos do curto-circuito.

Na maioria dos sistemas de baixa tensão, é suficiente aproximar a contribuição total somando 4 vezes a corrente nominal dos motores:

\[ I_{kM} \approx 4 \sum I_M \]

Essa contribuição é somada à corrente presumida calculada pela fonte principal.

Exemplo

Calcular as correntes de curto-circuito presumidas máximas nos pontos F1, F2, F3 e F4.

Fig. 9: Diagrama unifilar do exemplo F1 a F4

Passo 1 e 2: Dados da AT e Transformador

Rede AT: \(U_{nQ} = 13,8 \text{ kV}\), \(c_Q = 1,1\), \(I_{kQmax}^{\prime\prime} = 15 \text{ kA}\).

Cabo L1 (AT): \(1,7 \text{ km}\), \(150 \text{ mm}^2\). Calcula-se \(R_{L1}\) e \(X_{L1}\) usando dados do fabricante.

Transformador T1: \(S_{NT} = 400 \text{ kVA}\), \(13,8 \text{ kV} / 380 \text{ V}\), \(u_k = 4\%\), \(u_R = 1,15\%\).

O transformador é a “ponte” matemática. Suas impedâncias são calculadas e somadas às da Rede e Linha L1, que devem ser referidas para a Baixa Tensão (dividindo por \(t_N^2\)).

Código
# 1. Impedância da Rede (AT)
U_nQ = 13.8        # kV
c_Q = 1.1          # Tabela 10.2
I_kQ = 15.0        # kA

# Z_Q em ohms (fórmula com kV e kA gera ohms, multiplicamos por 1000 para mOhm)
Z_Q = (c_Q * U_nQ * 1000) / (sqrt(3) * I_kQ)
X_Q = 0.995 * Z_Q
R_Q = 0.1 * X_Q

println("Rede AT: Z_Q = $(round(Z_Q, digits=1)) mΩ (R=$(round(R_Q, digits=1)), X=$(round(X_Q, digits=1)))")

# 2. Cabo L1 (AT)
l_1 = 1700.0       # m
r_L1 = 0.151       # mΩ/m
x_L1 = 0.132       # mΩ/m

R_L1 = l_1 * r_L1
X_L1 = l_1 * x_L1
println("Cabo L1: R_L1 = $(round(R_L1, digits=1)) mΩ, X_L1 = $(round(X_L1, digits=1)) mΩ")

# 3. Reflexão para Baixa Tensão (BT)
t_N = 13800.0 / 380.0
t_N2 = t_N^2

R_AT_refl = (R_Q + R_L1) / t_N2
X_AT_refl = (X_Q + X_L1) / t_N2
println("Refletido para BT: R_AT = $(round(R_AT_refl, digits=3)) mΩ, X_AT = $(round(X_AT_refl, digits=3)) mΩ")

# 4. Transformador
S_NT = 400.0       # kVA
U_BT = 380.0       # V
u_k = 4.0 / 100
u_R = 1.15 / 100

Z_T = u_k * (U_BT^2 / S_NT)
R_T = u_R * (U_BT^2 / S_NT)
X_T = sqrt(Z_T^2 - R_T^2)

println("Trafo BT: Z_T = $(round(Z_T, digits=2)) mΩ (R=$(round(R_T, digits=2)), X=$(round(X_T, digits=2)))")

# TOTAL até F1
R_F1 = R_AT_refl + R_T
X_F1 = X_AT_refl + X_T
Z_F1 = sqrt(R_F1^2 + X_F1^2)

# Corrente de Curto em F1 (usando c=1.0 para BT segundo Cotrim)
I_kF1 = (1.0 * 380) / (sqrt(3) * Z_F1 * 10^-3)
println("\n--- CORRENTE EM F1 ---")
println("I_k (F1) = $(round(I_kF1 / 1000, digits=2)) kA")
Rede AT: Z_Q = 584.3 mΩ (R=58.1, X=581.4)
Cabo L1: R_L1 = 256.7 mΩ, X_L1 = 224.4 mΩ
Refletido para BT: R_AT = 0.239 mΩ, X_AT = 0.611 mΩ
Trafo BT: Z_T = 14.44 mΩ (R=4.15, X=13.83)

--- CORRENTE EM F1 ---
I_k (F1) = 14.54 kA

Passo 3: Impedâncias das Linhas BT

As impedâncias na baixa tensão são calculadas por \(Z_L = l \cdot Z^{\prime}_L\):

  • Linha L2: Alimentador principal do quadro (5 metros de cabo pesado \(240 \text{ mm}^2\)). Adiciona pequena impedância.
  • Linha L3: Circuito para F3 (20 metros de \(70 \text{ mm}^2\)).
  • Linha L4: Circuito terminal para F4 (10 metros de \(6 \text{ mm}^2\)). Fios muito finos causam grande queda de tensão e estrangulam a corrente de curto.
Código
# Para rodar esta célula, a anterior (Passo 1 e 2) deve ter sido executada.

# --- Linha L2 (F1 para F2) ---
# 5 metros de cabo pesado (2 x 4x240 mm²)
l_2 = 5.0
R_L2 = l_2 * 0.0754
X_L2 = l_2 * 0.0976

R_F2 = R_F1 + R_L2
X_F2 = X_F1 + X_L2
Z_F2 = sqrt(R_F2^2 + X_F2^2)

I_kF2 = 380 / (sqrt(3) * Z_F2 * 10^-3)
println("--- PONTO F2 (Barramento Principal) ---")
println("Z_F2 = $(round(Z_F2, digits=2)) mΩ -> I_k = $(round(I_kF2/1000, digits=2)) kA\n")

# --- Linha L3 (F2 para F3) ---
# 20 metros de cabo médio (70 mm²)
l_3 = 20.0
R_L3 = l_3 * 0.268
X_L3 = l_3 * 0.1038

R_F3 = R_F2 + R_L3
X_F3 = X_F2 + X_L3
Z_F3 = sqrt(R_F3^2 + X_F3^2)

I_kF3 = 380 / (sqrt(3) * Z_F3 * 10^-3)
println("--- PONTO F3 (Final da Linha 3) ---")
println("Z_F3 = $(round(Z_F3, digits=2)) mΩ -> I_k = $(round(I_kF3/1000, digits=2)) kA\n")

# --- Linha L4 (F2 para F4) ---
# 10 metros de cabo fino (6 mm²)
l_4 = 10.0
R_L4 = l_4 * 3.08
X_L4 = l_4 * 0.1068

R_F4 = R_F2 + R_L4
X_F4 = X_F2 + X_L4
Z_F4 = sqrt(R_F4^2 + X_F4^2)

I_kF4 = 380 / (sqrt(3) * Z_F4 * 10^-3)
println("--- PONTO F4 (Final da Linha 4) ---")
println("Z_F4 = $(round(Z_F4, digits=2)) mΩ -> I_k = $(round(I_kF4/1000, digits=2)) kA")
--- PONTO F2 (Barramento Principal) ---
Z_F2 = 15.67 mΩ -> I_k = 14.0 kA

--- PONTO F3 (Final da Linha 3) ---
Z_F3 = 19.79 mΩ -> I_k = 11.08 kA

--- PONTO F4 (Final da Linha 4) ---
Z_F4 = 39.0 mΩ -> I_k = 5.63 kA

Passo 4: Correntes Finais (Sem Motores)

Somando o \(Z\) acumulado desde a fonte até cada ponto e aplicando a Expressão de \(I_{k3}^{\prime\prime}\):

Ponto Componente Limitador Principal Corrente Trifásica (kA)
F1 Secundário imediato do Trafo \(\approx 14,2 \text{ kA}\)
F2 Barramento (após L2 5m) \(\approx 14,1 \text{ kA}\)
F3 Fim da Linha L3 (20m) \(\approx 8,4 \text{ kA}\)
F4 Fim da Linha L4 (10m) \(\approx 1,7 \text{ kA}\)

O curto despenca de 14 kA para 1,7 kA apenas por passar em um fio fino de \(6 mm^2\).

Cálculos Simplificados

Avaliação simplificada

Muitas vezes, a montante do transformador (rede AT) possui potência de curto-circuito infinita (\(S_{kQ} = \infty\)), ou seja, \(Z_Q = 0\).

Nesse caso, a corrente de curto-circuito presumida nos terminais do secundário (\(I_{kT}\)) depende exclusivamente da própria impedância interna do transformador:

\[ I_{kT} = \frac{I_{NT(BT)} \cdot 100}{u_{k}\%} \]

Fig. 10: Barra de AT considerada barra infinita.

Exemplo Prático: Se a impedância de placa do trafo for \(u_k = 4\%\), ele fornecerá uma corrente de curto \(100/4 = 25\) vezes maior que sua própria corrente nominal!

Por que aparece o termo cruzado?

\(Z_{k0}\) e \(R\) (do cabo) estão em série, então somam como vetores (números complexos), não como módulos:

\[ Z_{total} = \underbrace{(R_{k0}+jX_{k0})}_{Z_{k0}} + \underbrace{R}_{\text{cabo, ângulo }0^\circ} \]

  • \(|a+b|^2 = |a|^2+|b|^2\) só vale se \(a \perp b\) (Pitágoras). Em geral, é a lei dos cossenos: \[ |a+b|^2 = |a|^2+|b|^2+2|a||b|\cos\theta \]
  • Aqui, \(\theta=\Phi_{k0}\) é o ângulo entre \(Z_{k0}\) e o eixo real (onde está \(R\), o cabo, com ângulo \(0^\circ\)).
  • Logo \(2|a||b|\cos\theta = 2\,Z_{k0}\,R\,\cos\Phi_{k0} = 2\,R\,R_{k0}\), já que \(R_{k0}=Z_{k0}\cos\Phi_{k0}\) é a projeção de \(Z_{k0}\) no eixo real.
  • Só some sem o termo cruzado se \(\Phi_{k0}=90^\circ\) (fonte puramente reativa) — não é o caso aqui (\(\cos\Phi_{k0}=0,3\)).

Método Aproximado para Fim de Linha

Para curtos monofásicos no fim de circuitos longos, podemos calcular a atenuação drástica da corrente usando a fórmula algébrica do livro:

Forma geral (Expressão 10.36 — sem substituir nada):

\[ I_{k} = \frac{U_0}{\sqrt{\dfrac{U_0^2}{I_{k0}^2} + \dfrac{2\,U_0\,\rho\cos\Phi_{k0}\,l}{I_{k0}\,S} + \dfrac{\rho^2l^2}{S^2}}} \]

Substituindo \(U_0=220\text{ V}\) e \(\rho=22{,}4\text{ m}\Omega\cdot\text{mm}^2/\text{m}\) (cobre a \(95^\circ\text{C}\)) — Expressão 10.37:

\[ I_{kB} = \frac{220}{\sqrt{\dfrac{48.400}{I_{k0}^2} + \dfrac{2 \cdot 220 \cdot 22,4 \cdot \cos\Phi_{k0} \cdot l}{I_{k0} \cdot S} + \left(\dfrac{22,4 \cdot l}{S}\right)^2}} \]

  • \(220\): Tensão fase-neutro (sistema \(380\text{V} / \sqrt{3}\)). É a tensão que empurra o curto monofásico.
  • \(48.400\): \(220^2\). Surge ao elevar a impedância da fonte ao quadrado (\(Z_{fonte}^2 = (220 / I_{k0})^2\)).
  • Termo do meio: fator cruzado entre a resistência do cabo e a componente resistiva da fonte (\(R_{k0}=220\cos\Phi_{k0}/I_{k0}\)) — não pode ser omitido, mesmo que \(\cos\Phi_{k0}\) seja pequeno, pois multiplica \(l/S\) diretamente (cresce com o comprimento do cabo).
  • \(22,4\): Resistividade do cobre (\(\rho\)) a \(95^\circ\text{C}\) no momento do curto (em \(\text{m}\Omega\cdot\text{mm}^2/\text{m}\)).

Exemplo

Corrente no quadro inicial \(I_{k0} = 15 \text{ kA}\), \(\cos\Phi_{k0}=0,3\). Qual a corrente no fim de um cabo terminal de \(16 \text{ mm}^2\) com \(20 \text{ m}\) de comprimento?

Código
I_k0 = 15000.0    # Corrente no início (A)
S = 16.0          # Seção (mm²)
l = 20.0          # Comprimento (m)
U_fase = 220.0    # Tensão de fase (V)
cos_phi_k0 = 0.3  # Fator de potência do curto-circuito no início da linha

rho_cobre_95 = 22.4  # mOhm * mm² / m

# Termos da Expressão 10.36/10.37 (todos em mΩ² para somar sob a raiz)
Z_fonte = (U_fase / I_k0) * 1000       # mΩ -- |Z_k0| = U0/I_k0
R_cabo = (rho_cobre_95 * l) / S        # mΩ -- resistência do trecho de cabo
R_k0 = U_fase * cos_phi_k0 / I_k0 * 1000  # mΩ -- componente resistiva da fonte (Expr. 10.35)

termo1 = Z_fonte^2
termo2 = 2 * R_cabo * R_k0     # termo cruzado -- ausente na versão anterior
termo3 = R_cabo^2

I_kB = U_fase / (sqrt(termo1 + termo2 + termo3) / 1000)   # /1000: mΩ -> Ω

println("Corrente no Quadro (Início): $(round(I_k0/1000, digits=2)) kA")
println("Resistência do Trecho: $(round(R_cabo, digits=2)) mOhm")
println("Componente resistiva da fonte (R_k0): $(round(R_k0, digits=2)) mOhm")
println("Corrente Presumida no Fim da Linha: $(round(I_kB/1000, digits=2)) kA")
println("\nValor de referência (gráficos dos fabricantes): 6,2 kA")
Corrente no Quadro (Início): 15.0 kA
Resistência do Trecho: 28.0 mOhm
Componente resistiva da fonte (R_k0): 4.4 mOhm
Corrente Presumida no Fim da Linha: 6.23 kA

Valor de referência (gráficos dos fabricantes): 6,2 kA
Fig. 11: Diagrama para a determinação rápida da corrente de curto-circuito presumida (Cortesia da Bticino).

Corrente de Curto-Circuito Presumida Mínima

Corrente de Curto-Circuito Presumida Mínima

Necessária para dimensionar disjuntores e verificar se eles irão “enxergar” faltas no fim da linha:

\[ I_{k\text{mín}} = \frac{0,8 \, U \, S}{r \, \rho \, 2l} \]

  • \(0,8\): Fator normativo de segurança para queda de tensão durante a falta.
  • \(2l\): Vai e volta do curto-circuito monofásico.
  • \(r\): Fator corretivo dependendo da seção.
  • \(\rho\): Resistividade - \(0,027~\Omega mm^2 / m\) para cobre.
Tab. 4: Valores do coeficiente \(r\) em função da seção nominal \(S\).
\(r\) \(S\) (mm\(^2\))
1,00 \(\leq 120\)
1,15 150
1,20 185
1,25 240

Exemplo: Curto-Circuito Mínimo (\(I_{k\text{mín}}\))

Calcular as correntes de curto-circuito presumidas mínimas nos pontos F3 e F4:

  • F3 (Linha L3): 3F + N, \(U = 220 \text{ V}\), \(S = 70 \text{ mm}^2\) (cobre), \(l = 20 \text{ m}\).
  • F4 (Linha L4): 3F + N + PE, \(U = 220 \text{ V}\), \(S = 6 \text{ mm}^2\) (cobre), \(l = 10 \text{ m}\).

Código
# Dados Iniciais
U_fase = 220.0
rho_cobre = 0.027  # Ohms * mm² / m (valor assumido normativamente para o condutor quente)

println("--- Ponto F3 (Linha L3) ---")
S3, l3, r3 = 70.0, 20.0, 1.00 # r=1 para <=120mm²

# Fórmula: I_kmin = (0.8 * U_fase * S3) / (r3 * rho_cobre * 2 * l3)
I_kmin_3 = (0.8 * U_fase * S3) / (r3 * rho_cobre * 2 * l3)
println("I_kmin (F3) = $(round(I_kmin_3, digits=0)) A (ou $(round(I_kmin_3/1000, digits=2)) kA)\n")

println("--- Ponto F4 (Linha L4) ---")
S4, l4, r4 = 6.0, 10.0, 1.00
I_kmin_4 = (0.8 * U_fase * S4) / (r4 * rho_cobre * 2 * l4)
println("I_kmin (F4) = $(round(I_kmin_4, digits=0)) A (ou $(round(I_kmin_4/1000, digits=2)) kA)")
--- Ponto F3 (Linha L3) ---
I_kmin (F3) = 11407.0 A (ou 11.41 kA)

--- Ponto F4 (Linha L4) ---
I_kmin (F4) = 1956.0 A (ou 1.96 kA)

Referências

COTRIM, Ademaro A. M. B. Instalações Elétricas. 5ª Edição. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009.

Exercícios

Exercício 1

Qual o valor da corrente de crista de falta em BT depende de quais parâmetros?

Depende da corrente de curto simétrica inicial (\(I_k^{\prime\prime}\)) e do fator de assimetria \(\lambda\), que é regido pela relação \(R/X\) do circuito.

Exercício 2

Quais fontes de correntes de faltas são consideradas as principais?

Rede da concessionária, geradores síncronos, compensadores síncronos e motores (síncronos e de indução).

Exercício 3

Como é determinado o fator de potência de curto-circuito?

A partir da reatância indutiva total e da resistência total do percurso da corrente (\(\cos\phi_k = R_k / Z_k\)).

Exercício 4

Qual é a definição da corrente simétrica inicial (\(I_k^{\prime\prime}\))?

Valor eficaz do componente alternado no instante inicial da falta, admitindo que a impedância mantenha seu valor inicial.

Exercício 5

Qual é a definição da corrente simétrica permanente (\(I_k\))?

Valor eficaz da corrente que se mantém após a cessação dos fenômenos transitórios.

Exercício 6

Defina valor de crista da corrente de curto-circuito.

Valor instantâneo máximo possível atingido pela corrente de curto-circuito presumida.

Exercício 7

Quais impedâncias são consideradas nos cálculos para curtos em BT?

Impedâncias de sequência positiva da rede AT, dos transformadores, das linhas de BT e da contribuição dos motores.

Exercício 8

Quando deve ser considerada a contribuição dos motores assíncronos?

Quando a soma de suas correntes não for desprezível. Na prática, adota-se \(I_{kM} \approx 4 \sum I_M\).

Exercício 9

Qual a relação entre as correntes bifásica (\(I_{k2}\)), fase-terra (\(I_{k1}\)) e trifásica (\(I_{k3}\))?

\(I_{k3}\) é geralmente a maior. \(I_{k2} = \frac{\sqrt{3}}{2} I_{k3}\). Já \(I_{k1}\) depende fortemente da impedância de sequência zero.

Exercício 10

Quando temos impedância de neutro (\(Z_n\)), \(Z_0\) é acrescida de qual valor?

A impedância de sequência zero (\(Z_0\)) é acrescida de \(3Z_n\).

Obrigado!

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