ELE618 - Sistemas Elétricos Industriais

Instalações Elétricas - Ademaro A. M. B. Cotrim
Capítulo 11 - Proteção contra Sobrecorrentes

Prof. Dr. Thales A. C. Maia

UFMG - DEE

Introdução às Sobrecorrentes

Conceitos Básicos

Nas instalações elétricas, as sobrecorrentes são tradicionalmente divididas em dois tipos fundamentais:

  • Correntes de Sobrecarga: Ocorrem em um circuito sem que haja qualquer falta elétrica.
  • Correntes de Curto-Circuito: Provenientes de uma falta elétrica (curto).

As partidas de muitos equipamentos dão lugar a sobrecargas transitórias:

  • Lâmpadas incandescentes: ~12x a corrente nominal.
  • Motores de indução: ~7x a corrente nominal (por poucos segundos).
  • Lâmpadas de descarga (alta pressão): 2x a 3x a corrente nominal (por alguns minutos).

Causas Comuns

A longo prazo, as sobrecorrentes assumem caráter permanente ou de falta, sendo as principais causas:

  • Sobrecargas: Provocadas pela substituição de equipamentos de utilização previstos por outros de maior potência.
  • Sobrecargas: Provocadas por motores mecanicamente sobrecarregados.
  • Curtos-Circuitos: Provocados por erros de ligação ou falha severa na isolação.

Limitação da Duração

Qualquer sobrecarga eleva perigosamente a temperatura do cabo (10 ºC a 15 °C acima do limite). Mas o fio tem inércia térmica: ele não derrete instantaneamente.

  • Uma sobrecarga pequena demora dezenas de minutos para causar danos.
  • Uma sobrecarga severa (ex: rotor de motor travado) danifica o isolante em poucos segundos.

Por isso, o disjuntor não pode ter um “temporizador” fixo. A sua resposta deve se adaptar à gravidade do problema.

O que é Atuação a Tempo Inverso?

Para espelhar o comportamento físico do cabo, a proteção térmica (do disjuntor ou relé) possui uma curva de Tempo Inverso.

O conceito é uma regra de três intuitiva: > MUITO calor gerado (Corrente Alta) \(\longrightarrow\) POUCO tempo tolerado para o desarme.

A curva do disjuntor “imita” a curva de aquecimento do cabo, protegendo-o sem desligar a fábrica à toa por causa de um pico de partida rápido.

Atuação a Tempo Inverso

Fig. 1: Atuação a tempo inverso.

Zona de Atuação Ideal

As curvas de sobrecarga do cabo (partida a frio e a quente) delimitam a zona ideal para a curva de atuação do dispositivo de proteção:

Fig. 2: Curvas-limite de sobrecarga e curva de atuação ideal.

Impactos Térmicos

Sobrecorrentes prolongadas afetam perigosamente o isolamento dos condutores, elevando a temperatura de 10 ºC a 15 °C acima do limite de serviço contínuo.

Limites regulamentados:

  • PVC: \(70^\circ\text{C}\) (serviço) / \(100^\circ\text{C}\) (sobrecarga) / \(160^\circ\text{C}\) (curto-circuito).
  • XLPE / EPR: \(90^\circ\text{C}\) (serviço) / \(130^\circ\text{C}\) (sobrecarga) / \(250^\circ\text{C}\) (curto-circuito).

Um condutor PVC operando continuamente a \(70^\circ\text{C}\) possui vida útil estimada de cerca de 20 anos.

A Integral de Joule

Conceituação

A integral de Joule (\(I^2t\)) mede o “esforço térmico” total de um pulso de corrente de curta duração — como um curto-circuito.

Para correntes muito elevadas e tempos muito curtos, não se pode mais tratar a corrente como um valor eficaz constante: é preciso considerar corrente e tempo em conjunto, no produto integral:

\[\int_0^t i(t)^2\, dt = I^2t \tag{11.1}\]

Segundo o Buff Book do IEEE: o conceito de \(I^2t\) substitui a corrente simétrica porque representa os esforços térmicos e magnéticos reais impostos a um componente nos primeiros ciclos de um curto-circuito.

Interpretação Gráfica

\(I^2t\) é proporcional à área sob a curva \(i^2 = f(t)\):

Fig. 3: Interpretação da integral de Joule.

Proteção Parcial do Condutor

Duas situações comuns em que o dispositivo só protege parcialmente a faixa de sobrecarga:

Fig. 4: Proteção de condutor contra correntes de sobrecarga: (a) dispositivo só protege a partir de nA; (b) dispositivo só protege até nA

Integral de Joule dos Condutores

Nos condutores, a integral de Joule está diretamente ligada à vida útil da isolação.

  • A 70 °C contínuos, um cabo com isolação de PVC tem vida útil estimada de ~20 anos.
  • Cada ocorrência de sobrecorrente “consome” uma fração dessa vida útil — adota-se, por segurança, que cada sobrecorrente pode durar até 1/1.000 da vida útil total do cabo.

Fig. 5: Curvas de vida útil relativas às isolações de PVC e EPR.

A Curva \((I^2t) = f(I)\) do Condutor

Fig. 6: Curva \(I^2t = f(I)\) típica de um cabo

  • Assíntota vertical em \(I = I_Z\): o condutor atinge a temperatura máxima de serviço contínuo; \(I^2t \to \infty\).
  • Assíntota horizontal (limite adiabático): sem troca de calor com o meio, \(I^2t \approx\) constante.

Cálculo do \(K\) (NBR 5410)

A integral de Joule admissível por um condutor, em regime adiabático, entre a temperatura de serviço contínuo \(\theta_Z\) e a de curto-circuito \(\theta_k\):

\[\int_0^t i^2\, dt = K^2S^2 \tag{11.7}\]

onde \(S\) é a seção do condutor (mm²) e \(K\) depende do material condutor e da isolação:

Isolação Metal \(\theta_k\) (°C) \(K\)
PVC Cobre 160 115
EPR/XLPE Cobre 250 135
PVC Alumínio 160 74
EPR/XLPE Alumínio 250 87

(Tabela 11.1 ■ Obtenção dos valores de K — 2 de 4 linhas, a título de ilustração)

Exemplo: Condutor Cu/PVC de 10 mm²

Fig. 7: Curvas \(I^2t = f(I)\) para condutores e cabos isolados de cobre, com isolação de PVC, considerando a maneira de instalar B e dois condutores carregados (Cortesia da Bticino)

Um condutor Cu/PVC de 10 mm² conduzindo 200 A possui uma energia de aproximadamente \(4\times10^6\ A^2s\).

Já próximo ao seu limite adiabático (≈1.030 A), a energia máxima admissível cai para \(1.322{,}5\times10^3\ A^2s\).

Exemplo: Condutor Cu/PVC de 10 mm²

Vamos calcular, em Julia, por quanto tempo o condutor suporta cada uma dessas correntes — e visualizar a curva \((I^2t)=f(I)\) completa.

Código
using Plots

# Dados do condutor Cu/PVC 10 mm² (Figura 11.7a)
I2t_200A  = 4e6      # A²s, a 200 A (bem abaixo do limite adiabático)
I2t_adiab = 1322.5e3 # A²s, no limite adiabático (~1030 A)
I_adiab   = 1030.0    # A

t_200  = I2t_200A / 200.0^2
t_2000 = I2t_adiab / 2000.0^2

println("Corrente de 200 A  -> tempo máximo: ", round(t_200, digits=1), " s")
println("Corrente de 2000 A -> tempo máximo: ", round(t_2000, digits=2), " s")
Corrente de 200 A  -> tempo máximo: 100.0 s
Corrente de 2000 A -> tempo máximo: 0.33 s

Integral de Joule dos Disjuntores Termomagnéticos

Fig. 8: Característica \(I^2t = f(t)\) típica de um dis- juntor termomagnético

A curva \((I^2t)=f(I)\) de um disjuntor apresenta quatro regiões:

  • (I) \(I \le I_N\): sem limitação de tempo.
  • (II) \(I_N < I \le I_M\): atua o disparador térmico (tempos longos).
  • (III) \(I_M < I \le I_{CN}\): atua o disparador eletromagnético\(I^2t\) cresce com a corrente.
  • (IV) \(I > I_{CN}\): o disjuntor não deve ser utilizado.

Para os disjuntores rápidos, na região (III), \(I^2t\) é aproximadamente proporcional a \(I^2\) — a curva aparece como uma reta em escala log-log.

Ação de um Disjuntor Limitador de Corrente

O oscilograma mostra a corrente de curto-circuito sendo interrompida antes de atingir seu pico presumido — a área sob a curva até a interrupção é proporcional à integral de Joule que o disjuntor efetivamente deixa passar.

Fig. 9: Ação de um disjuntor limitador de corrente.

Curvas de Curto-Circuito dos Cabos

Fig. 10: Curvas de corrente de curto-circuito em função das seções, com o tempo em ciclos) como parâmetro para os cabos Sintenax 0,6/1 kV da Prysmian.

Integral de Joule dos Fusíveis

Ao contrário dos disjuntores (reutilizáveis), dos fusíveis exige-se apenas que não ofereçam perigo na interrupção.

  • O tempo de pré-arco é, com boa aproximação, inversamente proporcional a \(I^2\) — grande poder de limitação sobre a corrente de crista.
  • Há três valores relevantes de \(I^2t\): de fusão, de arco, e de interrupção (fusão + arco) — este último é o que interessa à proteção dos condutores.

Critérios Gerais da Proteção contra Sobrecorrentes

O Dispositivo de Proteção Ideal

Os condutores vivos de um circuito devem ser protegidos contra sobrecorrentes. Um dispositivo ideal:

  • Não intervém para correntes \(\le I_Z\) (capacidade de condução do condutor).
  • Intervém sempre, ainda que em tempo longo, para sobrecargas até \(1{,}45\,I_Z\).
  • Intervém em tempos decrescentes entre \(1{,}45\) e \(6\)\(7\,I_Z\).
  • Intervém em tempos brevíssimos para correntes de curto-circuito.

Característica de Atuação Ideal × Real

Fig. 11: Característica de atuação ideal comparada com disjuntores e fusíveis

Disjuntores termomagnéticos aproximam-se do ideal para sobrecargas e curtos moderados; fusíveis comportam-se melhor em curtos elevados, pior em sobrecargas leves.

Regras de Ouro (NBR 5410)

A NBR 5410 estabelece duas regras de ouro para coordenar o dispositivo (disjuntor/fusível) e o condutor:

Condição 1: \[ I_B \le I_N \le I_Z \]

Condição 2 (Proteção contra superaquecimento): \[ I_2 \le 1{,}45\, I_Z \]

onde \(I_2\) é a corrente convencional de atuação (disjuntores) ou de fusão (fusíveis), \(I_2 = \alpha\, I_N\).

Curvas Comerciais de Fusíveis

Fabricantes fornecem, para cada corrente nominal, os valores de \(I^2t\) de fusão, arco e interrupção — a característica que interessa à proteção dos condutores é a de interrupção:

Fig. 12: Características I 2t de interrupção para alguns fusíveis tipo gG (Cortesia da Bticino)G

Tipos de Gráficos \(I^2t\) dos Fabricantes

Fig. 13: Tipos de gráficos \(I^2t\) apresentados pelos fabricantes de fusíveis.

Usados principalmente para a verificação da seletividade entre fusíveis (adiante).

Tipos de Gráficos \(I^2t\) dos Fabricantes

Fig. 14: Valores de I²t para fusíveis gG (Legrand)

Exemplo: Verificação de Disjuntor

Considere um circuito com \(I_B = 28 \text{ A}\), condutores PVC e disjuntor com \(I_N = 30 \text{ A}\). O disjuntor protegerá termicamente o circuito sem desarmes falsos?

Código
I_B = 28.0  # Corrente de projeto
I_N = 30.0  # Corrente do Disjuntor

# Cabo 6 mm² (suporta 32.8 A em dada condição)
I_Z = 32.8

# Para disjuntores DIN, a corrente convencional de atuação I_2 é 1.45 * I_N
I_2 = 1.45 * I_N

cond_1 = (I_B <= I_N) && (I_N <= I_Z)
cond_2 = I_2 <= (1.45 * I_Z)

println("Condição 1 ($I_B <= I_N <= I_Z): ", cond_1 ? "OK (28 <= 30 <= 32.8)" : "FALHOU")
println("Condição 2 ($I_2 <= 1.45 I_Z): ", cond_2 ? "OK ($(I_2) <= $(1.45*I_Z))" : "FALHOU")
Condição 1 (28.0 <= I_N <= I_Z): OK (28 <= 30 <= 32.8)
Condição 2 (43.5 <= 1.45 I_Z): OK (43.5 <= 47.559999999999995)

Exemplo: Proteção com Fusível gG

Se usássemos um fusível gG de 35 A (\(I_N = 35\)) para proteger o mesmo fio de \(6 \text{ mm}^2\) (\(I_Z = 32.8\)). Funciona?

Código
I_B = 28.0
I_N = 35.0
I_Z = 32.8

# Para fusíveis gG, a corrente I_2 é 1.6 * I_N (Tabela 6.2)
I_2_fus = 1.6 * I_N

cond_2 = I_2_fus <= (1.45 * I_Z)
println("Para fusível 35A em cabo 6mm²:")
println("Condição 2: $(I_2_fus) <= $(round(1.45*I_Z, digits=1)) ? ", cond_2 ? "OK" : "FALHA NA NORMA!")
println("\nSolução: Engrossar o cabo para 10mm² (Iz=45.6A).")
println("Condição 2 (novo cabo): $(I_2_fus) <= $(round(1.45*45.6, digits=1)) -> OK")
Para fusível 35A em cabo 6mm²:
Condição 2: 56.0 <= 47.6 ? FALHA NA NORMA!

Solução: Engrossar o cabo para 10mm² (Iz=45.6A).
Condição 2 (novo cabo): 56.0 <= 66.1 -> OK

Proteção contra Sobrecargas

Aquecimento sob Sobrecarga de \(1{,}45\,I_Z\)

Quando percorrido por \(I = 1{,}45\, I_Z\), o condutor atinge uma temperatura de regime \(\theta_R\):

  • PVC: \(\theta_R = 114^\circ\text{C}\)
  • EPR/XLPE: \(\theta_R = 156^\circ\text{C}\)

O tempo para atingir a temperatura de sobrecarga \(\theta_S\) depende da constante de tempo térmica \(k_T\) do condutor:

\[k_T = \frac{10^4}{a^2}\left(0{,}7\,S^{0{,}75} + 0{,}8\,S^{0{,}5} + 0{,}36\,S^{0{,}25}\right) \tag{9.46}\]

onde \(S\) é a seção (mm²) e \(a\) é o fator de capacidade de condução para seção unitária (Tabela 9.3).

Tempos Característicos (PVC)

Todos os tempos vêm da mesma equação geral do transitório térmico:

\[t = k_T \ln\frac{\Delta\theta_R-\Delta\theta_0}{\Delta\theta_R-\Delta\theta_{alvo}}\]

  • \(\Delta\theta_R\): sobretemperatura de regime — onde a curva se estabiliza: \(\Delta\theta_R=n^2\Delta\theta_Z\), com \(n=I/I_Z\). O quadrado vem do aquecimento Joule (\(P=I^2R\)): dobrar a corrente quadruplica o calor gerado, não dobra.
  • \(\Delta\theta_0\): sobretemperatura inicial — partida a frio (\(\theta_0=\theta_A\)): \(\Delta\theta_0=0\); partida a quente (\(\theta_0=\theta_Z\)): \(\Delta\theta_0=\theta_Z-\theta_A\).
  • \(\Delta\theta_{alvo}\): sobretemperatura que queremos atingir\(\theta_S\) (sobrecarga) ou \(\theta_R\) (o próprio regime).

Para o PVC (\(\theta_A=30^\circ\text{C}\), \(\theta_Z=70^\circ\text{C}\)): partida a frio \(\Delta\theta_0=0\); partida a quente \(\Delta\theta_0=40^\circ\text{C}\).

De onde Vêm os Coeficientes?

Para PVC, \(n=1{,}45\):

\[\Delta\theta_R=n^2(\theta_Z-\theta_A)=1{,}45^2\times40=84°C\]

Faltam só \(\Delta\theta_0\) (de onde parte) e \(\Delta\theta_{alvo}\) (até onde vai):

Tab. 1: (a) Derivação de \(t_{S1}\) e \(t_{S2}\).
Caso \(\Delta\theta_0\) \(\Delta\theta_{alvo}\) Substituindo
\(t_{S1}\) (frio → \(\theta_S\)) \(0\) \(\theta_S-\theta_A=70\) \(k_T\ln\dfrac{84}{84-70}=k_T\ln 6\approx\mathbf{1{,}79\,k_T}\)
\(t_{S2}\) (quente → \(\theta_S\)) \(\theta_Z-\theta_A=40\) \(70\) \(k_T\ln\dfrac{84-40}{84-70}=k_T\ln 3{,}14\approx\mathbf{1{,}15\,k_T}\)

De onde Vêm os Coeficientes?

Tab. 2: (b) Derivação de \(t_{R1}\) e \(t_{R2}\).
Caso \(\Delta\theta_0\) \(\Delta\theta_{alvo}\) Substituindo
\(t_{R1}\) (frio → \(99\%\,\theta_R\)) \(0\) \(0{,}99\times84\) \(k_T\ln\dfrac{1}{0{,}01}=k_T\ln 100\approx\mathbf{4{,}6\,k_T}\)
\(t_{R2}\) (quente → \(99\%\,\theta_R\)) \(40\) \(0{,}99\times84\) \(k_T\ln\dfrac{84-40}{0{,}01\times84}=k_T\ln 52{,}4\approx\mathbf{3{,}95\,k_T}\)

“Chegar ao regime” levaria tempo infinito (\(e^{-t/k_T}\to0\) só quando \(t\to\infty\)) — por isso \(t_{R1}\)/\(t_{R2}\) usam a convenção prática de 99% do valor final.

Dedução completa: Expressões 9.35/9.36 (Cap. 9 — Curvas de Sobrecarga)

Cálculo dos Tempos

Grandeza Partida a frio (\(\theta_A\)) Partida a quente (\(\theta_Z\))
Até \(\theta_S\) \(t_{S1}=1{,}79\,k_T\) \(t_{S2}=1{,}15\,k_T\)
Até \(\theta_R\) \(t_{R1}=4{,}6\,k_T\) \(t_{R2}=3{,}95\,k_T\)

Vamos aplicar isso a dois condutores Cu/PVC reais do livro — 1,5 mm² e 10 mm² — no mesmo tipo de instalação.

Código
# Constante de tempo térmica -- Expressão 9.46
kT(S, a) = (1e4 / a^2) * (0.7*S^0.75 + 0.8*S^0.5 + 0.36*S^0.25)

# Eletroduto embutido em alvenaria, 2 condutores carregados (letra B1)
a = 13.5   # Tabela 9.3

secoes = Dict("1.5 mm²" => (S=1.5, Iz=17.5), "10 mm²" => (S=10.0, Iz=57.0))

for (nome, d) in secoes
    k = kT(d.S, a)
    tS1, tS2 = 1.79*k, 1.15*k
    tR1, tR2 = 4.6*k, 3.95*k
    println("== Condutor $nome (Iz=$(d.Iz) A) ==")
    println("  k_T  = $(round(k, digits=1)) s")
    print("  t_S1 (frio→sobrecarga)  = $(round(tS1, digits=1)) s    ")
    println("  t_S2 (quente→sobrecarga)= $(round(tS2, digits=1)) s")
    print("  t_R1 (frio→regime)      = $(round(tR1, digits=1)) s   ")
    println("  t_R2 (quente→regime)    = $(round(tR2, digits=1)) s")
end
== Condutor 1.5 mm² (Iz=17.5 A) ==
  k_T  = 127.7 s
  t_S1 (frio→sobrecarga)  = 228.5 s      t_S2 (quente→sobrecarga)= 146.8 s
  t_R1 (frio→regime)      = 587.3 s      t_R2 (quente→regime)    = 504.3 s
== Condutor 10 mm² (Iz=57.0 A) ==
  k_T  = 389.9 s
  t_S1 (frio→sobrecarga)  = 698.0 s      t_S2 (quente→sobrecarga)= 448.4 s
  t_R1 (frio→regime)      = 1793.7 s      t_R2 (quente→regime)    = 1540.2 s

Interpretação

O tempo convencional de 1 hora (3.600 s) para \(I=1{,}45\,I_N\) é o prazo máximo que a norma dá para o dispositivo atuar — não uma garantia de que ele atua exatamente nesse instante.

  • Para o condutor de 1,5 mm², \(t_{R1}\approx 598\,s\): o cabo atinge o regime (\(\theta_R=114^\circ\text{C}\)) em menos de 10 minutos.
  • O cabo está acima do próprio limite que a norma considera aceitável.
  • O cabo pode passar até ~3.000 s a mais (o resto da hora) nessa condição de sobretemperatura antes do desarme garantido.

Interpretação

Para o condutor de 10 mm², o mesmo raciocínio dá \(t_{R1}\approx 1.812\,s\) — ainda crítico, mas com mais margem (seção maior \(\Rightarrow\) \(k_T\) maior \(\Rightarrow\) esquenta mais devagar).

Por isso a NBR 5410 não confia só no critério de \(1{,}45\,I_Z\)/1h: para disjuntores, exige sempre também \(I_N \le I_Z\) (Expressão 11.12) — essa condição sozinha já é mais restritiva, evitando esse cenário desde o início.

O \(\alpha\) (multiplicador de \(I_N\) que define \(I_2\)) muda conforme a norma do disjuntor (Tabela 6.3):

\(\alpha\) Norma
\(1{,}30\) NBR IEC 60947-2 (industrial)
\(1{,}35\) RTQ / Inmetro 243 (residencial, compulsória)
\(1{,}45\) NBR NM 60898 (residencial/similar)

Curva-Limite de Sobrecarga

\(k_T = 130\) s (cabo pequeno)

\(k_T = 300\) s (cabo médio)

\(k_T = 500\) s (cabo grande)
Fig. 15: Curva-limite de sobrecarga nas condições da NBR 5410 para m=2 e kT=130, 300 e 500 segundos.

Exemplo: Dimensionamento Completo

Circuito com condutores Cu/PVC, eletroduto embutido em alvenaria, dois condutores carregados, corrente de projeto \(I_B = 28\ A\), temperatura ambiente \(30^\circ\text{C}\), compartilhando o eletroduto com outro circuito.

(a) Capacidade de condução: fator de agrupamento \(f_3=0{,}8\) (Tabela 9.10) \(\Rightarrow\) corrente fictícia \(I_B' = I_B/f_3\).

Código
I_B = 28.0
f3 = 0.8
I_B_ficticia = I_B / f3
println("Corrente fictícia de projeto: I_B' = $(round(I_B_ficticia, digits=1)) A")

# Tabela 5.27 (letra B1) + Tabela 9.4 -> seção de 6 mm² com capacidade tabelada de 41 A
Iz_tabelado_6mm = 41.0
Iz_6mm = Iz_tabelado_6mm * f3
println("Seção escolhida: 6 mm²  ->  Iz = $(Iz_tabelado_6mm) × $(f3) = $(Iz_6mm) A")
Corrente fictícia de projeto: I_B' = 35.0 A
Seção escolhida: 6 mm²  ->  Iz = 41.0 × 0.8 = 32.800000000000004 A

(b) Proteção com Disjuntor Termomagnético

Disjuntor em caixa moldada, corrente nominal referida a 40 °C (30 °C ambiente + 10 °C do quadro).

Código
I_B, I_Z = 28.0, 32.8
disjuntores_comerciais = [10,16,20,25,30,32,40,50]

# Expressão 11.11: I_B <= I_N   /  Expressão 11.12: I_N <= I_Z
I_N = minimum(filter(x -> x >= I_B, disjuntores_comerciais))
cond_11_12 = I_N <= I_Z

println("Menor disjuntor comercial com I_N >= I_B=28A: I_N = $(I_N) A")
println("Condição 11.12 (I_N <= I_Z=$(I_Z)A): ", cond_11_12 ? "OK" : "FALHOU")
Menor disjuntor comercial com I_N >= I_B=28A: I_N = 30 A
Condição 11.12 (I_N <= I_Z=32.8A): OK

(c) Proteção com Fusível gG — Falha e Correção

Um fusível gG de \(I_N=35\,A\) (menor comercial \(\ge 28\,A\)) tem \(\alpha=1{,}6\) (Tabela 6.2). Testamos a Expressão 11.14 (\(\alpha I_N \le 1{,}45\,I_Z\)) no cabo de 6 mm² e, se necessário, no de 10 mm².

Código
I_N_fus = 35.0
alpha = 1.6

Iz_6mm, Iz_10mm = 32.8, 45.6   # 41*0.8 e 57*0.8

teste(Iz) = alpha * I_N_fus <= 1.45 * Iz

println("Cabo 6 mm²  (Iz=$(Iz_6mm)A): $(alpha)×$(I_N_fus)=$(alpha*I_N_fus)  <=  1.45×$(Iz_6mm)=$(round(1.45*Iz_6mm,digits=1))  ?  ", teste(Iz_6mm) ? "OK" : "FALHA")
println("Cabo 10 mm² (Iz=$(Iz_10mm)A): $(alpha)×$(I_N_fus)=$(alpha*I_N_fus)  <=  1.45×$(Iz_10mm)=$(round(1.45*Iz_10mm,digits=1))  ?  ", teste(Iz_10mm) ? "OK" : "FALHA")
println()
println(teste(Iz_6mm) ? "" : "-> O cabo de 6 mm² não atende com fusível; é necessário usar 10 mm².")
Cabo 6 mm²  (Iz=32.8A): 1.6×35.0=56.0  <=  1.45×32.8=47.6  ?  FALHA
Cabo 10 mm² (Iz=45.6A): 1.6×35.0=56.0  <=  1.45×45.6=66.1  ?  OK

-> O cabo de 6 mm² não atende com fusível; é necessário usar 10 mm².

Omissão da Proteção contra Sobrecargas

A NBR 5410 permite omitir a proteção contra sobrecarga (fora de áreas de risco BE2/BE3), entre outros, quando:

  • (a) A linha a jusante de uma troca de seção já está protegida por um dispositivo a montante.
  • (b) A linha não é suscetível a sobrecargas (ex: motor com proteção térmica individual) e está protegida contra curto-circuito.
  • (c) Circuitos de telecomunicação, comando e sinalização.

Omissão da Proteção contra Sobrecargas

Fig. 16: Exemplos de omissão da proteção contra sobrecargas.

Exemplo: Omissão via RTQ Inmetro

Derivação com \(I_Z=42\,A\) já protegida pelo disjuntor geral \(I_N=40\,A\) — como \(40 < 42\,A\) (Expressão 11.12), a proteção pode ser omitida na derivação.

Fig. 17: Diagrama de omissão.

Exemplo: Circuito Principal com Derivações

Os trechos AB, BC e CD (seções decrescentes) já estão protegidos pelos disjuntores das derivações B, C e D.

Fig. 18: Diagrama de omissão.

Proteção contra Curtos-Circuitos

Condições Gerais (NBR 5410)

(a) Capacidade de interrupção: \[ I_{CN} \ge I_k \tag{11.23} \]

(b) Integral de Joule que o dispositivo deixa passar: \[ \int_0^t i^2\,dt \le K^2S^2 \tag{11.24} \]

Para curtos de 0,1 a 5 s, com corrente aproximadamente constante: \[ I_k^2 \cdot t \le K^2S^2 \tag{11.25} \]

Fig. 19: Condições de proteção contra curto-circuito

Capacidade de Interrupção Inferior ao Curto Presumido

A norma admite, excepcionalmente, um dispositivo com \(I_{CN} < I_k\) no ponto, desde que:

  • Exista outro dispositivo a montante com capacidade suficiente.
  • A energia que o dispositivo a montante deixa passar não supere a suportável pelo dispositivo e pela linha a jusante.
Fig. 20: Dispositivo com capacidade inferior à corrente de curto presumida

Limite Superior da Corrente Presumida

A corrente correspondente à interseção das curvas \((I^2t)=f(I)\) do disjuntor e do condutor deve ser, no mínimo, igual à corrente de curto-circuito presumida simétrica no ponto de instalação.

Fig. 21: Limite superior da corrente de curto-circuito presumida simétrica.

Proteção dos Condutores de Fase

Regra geral da NBR 5410: a detecção de sobrecorrentes deve ser prevista em todos os condutores de fase, provocando o seccionamento do condutor em que a sobrecorrente for detectada — não necessariamente dos demais.

  • Exceção 1: motores trifásicos — o seccionamento de uma única fase pode ser perigoso; todas as fases devem ser seccionadas simultaneamente.
  • Exceção 2: instalações residenciais — o dispositivo deve ser multipolar (disjuntores unipolares “emendados” lado a lado não são aceitos pela norma).

Coordenação Seletiva

O que é Seletividade?

Quando dois ou mais dispositivos são instalados em série, a atuação deles deve ser coordenada para que, em caso de falta, só atue o dispositivo mais a jusante (próximo do defeito).

Isso evita apagar a fábrica inteira por causa do defeito numa máquina!

Seletividade entre Fusíveis

Dois fusíveis gG são totalmente seletivos se a corrente do montante for pelo menos 1,6 vez maior que a do fusível a jusante:

\[ I_{NA} \ge 1{,}6\, I_{NB} \tag{11.26} \]

Ex: Um fusível gG de 63 A só será seletivo com outro de, no mínimo, \(63 \times 1{,}6 = 100{,}8\) (portanto, usa-se 100 A a montante).

Fig. 22: Dois dispositivos de proteção A e B, em série, percorridos pela mesma corrente de falta

Condição de Seletividade Total (Fusíveis)

É preciso garantir que o fusível a montante ainda não tenha iniciado a fusão quando o de jusante interrompe a falta:

\[ (I^2t)_{\text{interrupção, jusante}} < (I^2t)_{\text{fusão, montante}} \]

Fig. 23: Condição de seletividade total entre fusíveis

Seletividade entre Disjuntores

Para disjuntores termomagnéticos, a regra empírica da região térmica exige que o disjuntor a montante seja pelo menos 2,5 vezes maior que o de jusante:

\[ I_{NA} \ge 2{,}5\, I_{NB} \quad \text{(Expressão 11.28)} \]

sendo a seletividade limitada ao valor inferior do limiar de atuação magnética do disjuntor a montante.

Tabela 11.4 — Seletividade entre Disjuntores (amostra)

A Tabela 11.4 completa cruza todas as combinações de disjuntores usuais (jusante × montante). A título de ilustração, 3 linhas:

Disjuntor a jusante \(I_N\) (A) Seletivo total a partir do montante \(I_N\) (A) Limite de seletividade (\(5\times I_{N,\text{montante}}\))
10 25 125 A
20 50 250 A
30 70 350 A

(tabela completa disponível em images/tab11_4.png)

Proteção de Retaguarda (Backup)

Um caso muito comum: disjuntor pequeno e barato coordenado com fusível grande a montante.

A capacidade de interrupção do disjuntor é inferior ao curto máximo do painel. Assim, a função do fusível é atuar como ‘guarda-costas’, operando antes que o disjuntor exploda num curto severo, mas permitindo que o disjuntor desligue normalmente em caso de sobrecargas ou curtos leves.

As características tempo-corrente dos dois dispositivos devem cruzar-se o mais próximo possível (mas não acima) da capacidade de interrupção do disjuntor.

Referências

COTRIM, Ademaro A. M. B. Instalações Elétricas. 5ª Edição. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009.

Exercícios

Exercício 1

Quais são os dois tipos possíveis de sobrecorrente?

Correntes de sobrecarga (circuitos saudáveis porém sobrecarregados) e correntes de curto-circuito (ocasionadas por falha de isolação ou contato acidental).

Exercício 2

Qual é a vida estimada de um condutor com cobertura de PVC para serviço contínuo a 70 ºC?

Aproximadamente 20 anos operando ininterruptamente sob essa temperatura limite.

Exercício 3

Quais são os limites de temperatura para correntes de curto-circuito em cabos PVC e XLPE/EPR?

  • PVC: \(160^\circ\text{C}\).
  • XLPE/EPR: \(250^\circ\text{C}\).

Exercício 4

Quais são os limites de temperatura para correntes de sobrecarga em cabos PVC e XLPE/EPR?

  • PVC: \(100^\circ\text{C}\).
  • XLPE/EPR: \(130^\circ\text{C}\).

Exercício 5

Em quais condições um dispositivo de proteção ideal NÃO deve intervir e em quais ele DEVE intervir?

Ele não deve atuar para correntes \(\le I_Z\) (picos normais de operação). E deve atuar: sempre (ainda que devagar) até \(1{,}45\,I_Z\); em tempos decrescentes entre \(1{,}45\) e \(6\)\(7\,I_Z\); e em tempos brevíssimos para correntes de curto-circuito.

Exercício 6

Quais condições podem provocar redução na capacidade de condução de corrente (definindo o ponto de localização dos dispositivos de proteção contra sobrecarga)?

Uma troca (redução) de seção, uma alteração na natureza dos condutores (ex: barras → condutores isolados), uma mudança no modo de instalação, ou uma mudança de material/isolação dos condutores.

Exercício 7

Em que casos a NBR 5410 permite omitir a proteção contra sobrecargas?

  1. Quando a linha a jusante de uma troca de seção já está protegida por um dispositivo a montante.

  2. Quando a linha não é suscetível a sobrecargas e está protegida contra curto-circuito, sem derivações.

  3. Em instalações de telecomunicação, comando e sinalização.

Exercício 8

Em um curto-circuito, exige-se essencialmente que os disjuntores possuam quais características?

Capacidade de Interrupção Nominal (\(I_{CN}\)) não inferior à corrente de curto-circuito presumida simétrica, e atuação em tempo suficientemente breve para que a integral de Joule (\(I^2t\)) não supere o valor suportável pelo cabo (\(K^2S^2\)).

Exercício 9

Das afirmações a seguir, indique quais são corretas, no caso de dois fusíveis colocados em série e considerados seletivos:

  1. As suas características (curvas) tempo-corrente não se interceptam e mantêm entre si um distanciamento (de tempo) adequado.

  2. É necessário que a integral de Joule de interrupção do fusível a jusante seja inferior à integral de Joule de fusão do fusível a montante.

  3. Entre dois fusíveis gG, a corrente nominal do fusível a montante deve ser, no mínimo, 1,6 vez a do fusível a jusante.

Todas (a, b e c) estão corretas — são exatamente as três condições vistas nos slides de Seletividade entre Fusíveis.

Exercício 10

Quão superior deve ser o ajuste da corrente nominal do disjuntor a montante (\(I_{NA}\)) em relação ao de jusante (\(I_{NB}\)), para garantir seletividade?

\(I_{NA} \ge 2{,}5\, I_{NB}\) (Expressão 11.28) — ou seja, o ajuste do disjuntor a jusante não deve superar 40% do de montante.

Obrigado!

http://thalesmaia.com/